No Music Video Found

Listen on Suno
Gaivota, Cante (Add Vocal)
10
Artist:LordBastard
Duration:2:37
Tags:
Olha bem para este rectângulo, este ângulo de encanto, Onde dizem que somos o canto do espanto e do queixume, Mas o sol que aqui bate não é cinza nem lume de desmando, É o brilho de um bando que, no meio do vituperio, Faz deste império de sal um porto sem mistério, Onde o tal "cu da Europa" é, afinal, o rosto que se põe, Face ao mar que nos impõe a urgência de ser alguém. É de uma falta de educação, de uma falta de norte, Dizerem que a nossa sorte é a morte da organização, Quando a maior conspiração, a tal "corrupção" caseira, É decidir na beira da estrada, entre a jola e a asneira, Quem paga a rodada, quem limpa a passada, Nesta paz de armada onde o ódio não cria raiz, E o povo, infeliz de quem o diz, é quem melhor se condiz. E a corrupção? Ah, essa é de um rigor estético, Um crime frenético de açúcar, canela e pastéis, Corrompemos os papéis, as leis e os coronéis, Com o cheiro da sardinha, com a linha da vizinha, Que nos traz a meadinha do que resta da humanidade, Nesta vaidade de sermos brandos sem sermos submissos, Longe dos feitiços de um mundo que só sabe ser cruel. Somos tão atrasados que inventámos o infinito, Quando o grito era o mito de um mar sem regresso, E hoje, neste congresso de gente de insucesso, Usamos o "desrascanço", esse balanço de instinto, Que nenhum labirinto de Bruxelas consegue mapear, Porque a nossa maneira de estar é uma forma de inteligência, Uma ciência da paciência que o computador não sabe contar. Portugal não é o fim, não é o resto, não é o trapo, Não é o sapo que se engole na mesa do orçamento, É o momento, o alento, o rosto de um continente, Que esqueceu como é ser gente, como é ser presente, Sem o dente da ganância a morder a esperança, Nós somos a herança da mesa farta e do abraço aberto, O porto certo no deserto desta Europa gelada. Então, companheiro, que se lixe a estatística, Essa mística logística que nos quer pôr na cauda, Se a fraude é a pauta, se a alma nos falta, Nós saltamos a vala e fazemos da fala a nossa arma, Sem karma de coitadinhos, sem medo dos espinhos, Que a gente inventa os caminhos enquanto houver vinho, E este "jardim à beira do abismo" é o único sítio onde eu sei ser!
